segunda-feira, 17 de maio de 2010

Uma fênix em Cannes?



Dia 12 de maio iniciou a sexagésima terceira edição do Festival de Cinema de Cannes, na França. O evento acontece até o dia 23, quando conheceremos a opinião do júri, encabeçado por Tim Burton, acerca dos melhores longas-metragens inscritos na competição pela Palma de Ouro, possivelmente o prêmio mais estimado do cinema mundial.

Essa edição já apresenta pelo menos um fato curioso e polêmico: o documentário I'm still here: the lost year of Joaquin Phoenix, dirigido por Casey Affleck e "estrelado" pelo ator porto-riquenho Joaquin Phoenix, conhecido pelos seus trabalhos em Gladiador (Gladiator, 2000), de Ridley Scott, Sinais (Signs, 2002), A vila (The village, 2004), ambos dirigidos pelo indiano Manaj Night Shyamalan, Johnny & June (Walk the line, 2005), de James Mangold, Os donos da noite (We own the night, 2007) e Amantes (Two lovers, 2008), esses dois últimos realizados de maneira brilhante por James Gray. Amantes, aliás, segundo declaração do próprio ator, foi seu último e definitivo filme. No início do ano passado, meados de 2009, o ator anunciou que estava deixando os cinemas para se dedicar à carreira musical, ou, a um curioso projeto musical envolvendo hip hop, gênero no qual, conforme dizem os próprios norte-americanos, criadores do estilo, o ator seria um desastre - completo.


Rumores indicam que o que estaria levando o ator a abandonar uma carreira promissora nos cinemas para se dedicar a um confuso e até ridículo projeto musical seria uma grave crise existencial e/ou depressiva.  Na verdade, tudo está confuso na vida de Joaquin Phoenix, como aponta seu polêmico documentário e a entrevista que deu, ano passado, ao David Letterman (procurem no YouTube). Na entrevista, o ator, monossilábico, parece estar visivelmente sob efeito de drogas ou remédios pesados, e sente-se incomodado com o tom jocoso do apresentador e com os risos da plateia. Phoenix, abatido e atordoado, não sabe nem que é - e confessa, ou não lembra-se, que seu último filme, Amantes, foi baseado em um texto de Dostoievski. Letterman, de quem eu pessoalmente não gosto, parece fazer questão de insistir num viés humorístico a fim de entreter sua plateia - e suas piadas não são ruins, mas impertinentes. Incomoda que em nenhum momento o apresentador tenha interesse em Joaquin Phoenix para além do humor midiático.


No documentário, que o ator levou a Cannes para talvez conseguir investidores interessados em distribuí-lo, especula-se sobre uma encenação de um grande ator ou se trata-se, de fato, de um registro de seu cotidiano. O ator aparece cheirando cocaína, maltratando colaboradores, entorpecido em perfomances vergonhosas, praticando sexo oral com uma publicitária ou assessora e completamente obscurecido por uma personalidade depressiva e violenta. Entretanto, o que talvez mais tenha chocado os espectadores em Cannes tenha sido uma cena em que um amigo defeca, isso mesmo, dá uma cagada, sobre o ator enquanto ele dorme, sem falar nas diversas cenas de nudez masculina. Ou Phoenix decidiu assumir seu lado pasoliniano e também encarnar uma performance brilhante, ou realmente está afundado em uma crise existencial. Uma pena.

Considero-o um dos melhores atores surgidos nos últimos tempos no cinema norte-americano, e acho sua costumeira parceria com o diretor James Gray uma das mais profícuas da história recente - como Kar Wai e Leung, Almodóvar e Cruz, Martel e Morán, etc.

Espero que Phoenix recobre a lucidez e a consciência a tempo do cinema continuar a tê-lo brilhante - e espero, embore duvide, que esse documentário seja seu retorno das cinzas.

No mais, dia 23 ou 24 escrevo sobre os resultados em Cannes. 

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