quarta-feira, 21 de março de 2012

Mousikós (4): Johann Sebastian Bach



Meu primeiro post em 2012 será sobre a música de Johann Sebastian Bach, com quem tive meu primeiro alumbramento, há vinte e tantos anos. Na verdade na verdade, falarei o que conseguir a respeito de uma música. Parece pouco, em se tratando da gigantesca obra do compositor alemão, mas não é. Na verdade na verdade na verdade, cada uma de suas músicas pode ser gigantesca. Esta que trarei acho imensa.

A propósito, o blog, em fevereiro, completou dois anos de existência. Quis escrever algo, mas não deu. Quis também alterar o visual, mas não me animei. Em breve, porém, um novo visual chegará aos olhos de nossos queridos companheiros de leitura. Aceito sugestões para mudanças*. Mas, continuando, a inclusão de Bach na série Mousikós, que era inevitável, mas estava sendo adiada, faz parte de uma singela celebração aos dois anos do Corifeu.

Pois bem. Johann Sebastian Bach. Nascido em 1685, em Eisenach, Alemanha. Falecido em 1750, em Leipzig, Alemanha. Já foi chamado de deus da música. No sábado recente, num show do Toquinho, aqui em Santa Cruz do Sul, RS, o cantor e compositor lembrou-se que um de seus mestres, Paulinho Nogueira, dizia: "Se Deus tivesse voz, seria a de Bach". Em seguida, Toquinho executou, ao violão, trecho da famosa cantata bachiana conhecida, por aqui, como "Jesus, alegria dos homens". Foi com ela que tive meu primeiro alumbramento em música, lá pelos oito anos. Meus oito anos tiveram aurora.

"Bach", em alemão, significa "riacho". Diz-se que Beethoven teria achado inapropriado e sentenciou: "Nicht Bach, meer sollte er heissen". Algo como: "Não deveria ser riacho; deveria ser mar". A sentença ganhou fama por ter sido atribuída ao gênio da música moderna. Diz-se também que muitos outros grandes compositores adoraram o velho kantor, de Mozart a Stravinsky. Isso justifica a grandeza de Bach? Claro que não. São histórias icônicas. Bach é um fenômeno musical e, em matéria de música, para além do que pode ser tecnicamente explicável, Bach é um experiência subjetiva para a intimidade trans-histórica do sujeito. É simbólico? É, mas parece ultrapassar. Por isso, ultrapassa também tudo o que é racional, e é por isso que é difícil, impossível talvez, dizer tudo de sua música em nós de maneira prosaica. Me atrevo a dizer que nem o filosófico traz total dignidade a Bach. Teríamos que ser líricos - "retirar as roupas da lingugem", como diria Manoel de Barros - para compartilhar Bach. Teríamos que marulhar imagens. Minha tarefa, em não sendo poeta, é, portanto, uma tarefa que antecipa seu fracasso: falar racionalmente - tensamente - de Bach. Seguindo a sugestão de Manoel de Barros, digo: a música de Bach me põe onde não tenho conhecimento.

Entre 1733 e 1738, Johann Sebastian Bach, convertido ao protestantismo, escreveu uma missa católica, a Missa em si menor. Estranho que o grande músico protestante tenha feito uma obra católica, mas vejamos os detalhes. Naquela época, Bach era membro da Sociedade de Ciência de Leipzig e, por isso, provavelmente conhecia a filosofia de Leibniz, que tomara a iniciativa de promover a "reunião das Igrejas separadas", conforme Carpeaux. Parece que Bach aprovou essa ideia, e foi a partir dela que idealizou sua Missa. Embora o canto seja catolicamente litúrgico, a música ultrapassa qualquer liturgia. Mas o contexto da composição teve também um adendo prático: o rei da Saxônia converteu-se ao catolicismo romano para tornar-se rei da Polônia. Bach, que trabalhava em sua corte, almejava tornar-se Hofkapellmeister (maestro da corte real). Precisava, então, dedicar ao soberano uma peça católica. Aproveitou o momento, porém, para musicalizar suas ideias trans-institucionais. E, pelo que se comenta, conseguiu. Diz Carpeaux: "Certos trechos dão a impressão de uma imensa festa popular em igreja tão grande como nunca a ideou a imaginação de um arquiteto. Outros trechos parecem reflexo direto da harmonia - e do poder - das vozes angélicas no céu. Nesses momentos já não se pensa em protestantismo nem em catolicismo. As palavras Unam sanctum catholicam et apostolicam Ecclesiam, no Credo, Bach manda cantá-las conforme a melodia do coral gregoriano, que é anterior à separação das Igrejas: como se quisesse manifestar a esperança de reunião da cristandade perante o trono de Deus. A Missa em si menor é a maior obra de Bach e, talvez, a maior obra de toda a música ocidental. Uma catedral invisível, a mais alta que foi jamais construída". A opinião do ensaísta austríaco naturalizado brasileiro não parece ser diferente da do crítico suíço Hans-Georg Nägeli, que em 1817, antes da (re)descoberta de Bach por Mendelssohn, escreveu: "A Missa em si menor é a maior obra de música de todos os tempos e de todos os povos". Opiniões que cultivam a história icônica de Johann Sebastian Bach.

A Missa em si menor apresenta as cinco partes tradicionais da missa católica, Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei, formadas por cantatas escritas a partir do texto litúrgico latino. É a única missa que Bach escreveu. Jamais, ao que se sabe, foi executada pela Igreja Católica, talvez em função de seu tamanho, ou porque a Igreja ignora que alguém tenha lhe dedicado, em música, uma outra Capela Sistina, que, a propósito, assim como Michelangelo, não era católico.

A cantata que trago é a ária do Agnus Dei. Se tenho um cume, é este, até aqui. É lá que por vezes subo e fico. É umas das coisas que me fazem silenciar, e isso não tem a ver com religião. Como disse Fernando Pessoa no poema musicalizado que a Aninha trouxe anteriormente, há coisas que estão além. Acerca da execução, conheço umas seis versões. Trago a que mais gosto: a interpretação do Colégio Vocal de Gent, da Bélgica, fundado em 1970 por Philippe Herreweghe, um mestre. É ele o condutor dessa versão. A voz é a do alto Andreas Scholl. Divina. Bach deveria tê-lo ouvido. Há um CD com essa execução disponível para venda pelo ótimo selo Harmonia Mundi.

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Um abraço!

* Atualizado: a mudança já chegou!

2 comentários:

  1. A página está muito interessante! Parabéns! Já agendei com a Aninha de nos reencontrarmos! Abração!

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  2. Oi, Rô! Obrigado!
    Vamos nos ver, sim!
    Abração!

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