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sexta-feira, 23 de março de 2012

O amor

Da série poemas cantados, selecionei hoje um de Vladimir Maiakóvski: "O amor", de 1923, que foi vertido em canção por Caetano Veloso e Ney Costa Santos. Cantados por Gal Costa em uma melodia suave, os primeiros versos sugerem um eu-lírico que projeta o (re)encontro com o ser amado. Mas, como não poderia ser diferente para o poeta da revolução, a luta é o tema. Uma luta na qual a poesia, muitas vezes, é a única arma: "contra as misérias do cotidiano".
A tradução não coincide com a de Haroldo de Campos que encontrei na web (http://arcaliteraria.org), tampouco encontrei informações sobre a tradução - ou adaptação - que consta na canção, gravada em 1981 no álbum Fantasia, da Gal, que recebeu versão em cd em 1988 (Philips).

O amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso! Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casa.
Para que
doravante
a família
seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.
(1923)





sábado, 17 de março de 2012

Poesia e canção

A Poesia e a Canção podem ser consideradas irmãs. (Talvez sejam filhas da música). Ao longo do tempo temos lido/ouvido as duas em diferentes graus de aproximação. Às vezes, comportam-se como siamesas, como no caso de indiscutíveis manifestações poéticas nas letras de músicas brasileiras. Os laços de irmandade também são reforçados por vozes que cantam poemas. A prática de cantar poemas que foram feitos anteriormente na modalidade escrita - e configuram-se diferentemente das letras de música - é recorrente no cancioneiro brasileiro.
A partir de hoje - e sem uma sistemática subsequente definida - postarei aqui poemas cantados por diferentes cancionistas brasileiros. Inicio com "Segue o teu destino", de Ricardo Reis, publicado inicialmente no primeiro quartel do século XX, e atualizado na voz de Renato Braz - cd Outro Quilombo. A composição musical é de Sueli Costa.
Segue o teu destino
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é sombra
De árvores alheias

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses

Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses
Porque não se pensam


    domingo, 26 de fevereiro de 2012

    Par ma voix pour toujours ton nom entrera dans l'histoire

    Há coisas que (nos) ocorrem e que por elas somos impelidos a compartilhar. Impossível calar diante de uma voz como a de Renato Braz, descoberta musical mais recente do meu amor, Fabiano, e que compartilho aqui no blog. Aliás, utilizarei esse espaço de agora em diante para postar essas pérolas que vamos colhendo pelo caminho. Senti-me especialmente tocada pela canção "Dulcinéa", de Mitch Leigh e Jacques Brell. É a voz de Renato Braz suscitando em mim tudo o que significa esse nome que ficou para sempre na história através da voz de D. Quijote. Como pode? Tanta força no nome de alguém que nem sequer existiu deveras... Não?
     

    terça-feira, 22 de novembro de 2011

    Mousikós (3): José Miguel Wisnik

    Em setembro propus a série Mousikós, trazendo, em cada capítulo, um breve texto sobre algum músico e a oportunidade de conferir, na íntegra, através de um player, uma música de sua autoria. As duas primeiras partes foram dedicadas, respectivamente, a Léo Delibes e a Zbigniew Preisner. Por falar em Preisner, gostaria de compartilhar com nossos leitores que o compositor polonês, com quem costumo me corresponder, leu o texto e sentiu-se muito grato e honrado. Gentil e afável, convidou não só a mim, mas a todos do "sul do Brasil" que apreciavam sua música a, se um dia for possível, visitarem sua casa-estúdio, em Niepolomice, sul da Polônia, a leste de Cracóvia. Da mesma forma, externou sua vontade de retornar ao Brasil e, em ocorrendo essa visita, receber gentilmente a nós, ouvintes seus.

    O capítulo de hoje dedico ao cancionista brasileiro José Miguel Wisnik, ou Zé Miguel Wisnik. Arrisco-me a dizer que Wisnik é atualmente um dos grandes compositores de nosso país - do naipe de Caetano, Chico, João Bosco e por aí vai. Além de músico, Wisnik é um grande intelectual. Professor da Universidade de São Paulo, doutorou-se por lá em Teoria da Literatura e Literatura Comparada no início da década de 80. Publicou, entre outros títulos, Música: o nacional e o popular na cultura brasileira (Brasiliense, 1982, reeditado em 2001), ao lado de Ênio Squeff; o ótimo O som e o sentido (Companhia das Letras, 1989, reeditado em 1999), de uma erudição impressionante; Sem receita: ensaios e canções (PubliFolha, 2004); Machado maxixe (PubliFolha, 2008), aliando, como gosta de fazer, literatura e música, e Veneno remédio: o futebol e o Brasil (PubliFolha, 2008), brilhante ensaio sobre o sentido sociológico e antropológico do futebol em nosso país, desde seus primórdios. Como cancionista, lançou seu primeiro disco, José Miguel Wisnik, em 2000. Em 2002 veio São Paulo Rio. No ano seguinte foi a vez de Pérolas aos poucos, do qual retiramos a canção de hoje. O quarto disco, duplo, foi lançado alguns meses atrás, Indivisível, e, até onde pude conferir, pode ser considerado um dos melhores do ano.

    Sua carreira de músico teve início lá na década de 60, na Orquestra Municipal de São Paulo. Sua formação musical erudita ocorreu ao mesmo tempo que sua formação como cancionista (a primeira participação em um festival de canção ocorreu, aparentemente, também na década de 60). De fato, é notável a convergência entre a sensibilidade musical erudita, a imagem sofisticada e os temas populares em muitas de suas canções, quase sempre acompanhadas por um piano e/ou um violão (Wisnik também é conhecido pianista). Seu trabalho como compositor não se restringe à canção, atuando, também, no cinema, no teatro e nas obras do ótimo grupo de danças mineiro Corpo.

    No Mousikós de hoje trago a canção "Tempo sem tempo", do álbum Pérolas aos poucos (lançado em 2003 pela gravadora Tratore e, infelizmente, esgotado nas lojas). A canção reaparecerá no mais recente álbum Indivisível (Circus, 2011, v. 2). A diferença das versões está no arranjo. Enquanto a de 2003 é acompanhada por um piano (tocado pelo próprio Wisnik), a mais recente é acompanhada por um violão (executado por Arthur Nestrovski, outro compositor e intelectual brasileiro de destaque). Por falar em seu novo disco, Wisnik, partilhando canções com, por exemplo, Luiz Tatit e Chico Buarque (quer mais?), também transforma em canção poemas de Fernando Pessoa, Drummond, Gregório de Matos e Antonio Cícero (ufa!) e, surpreendam-se, escreveu letra para a Serenata, de Franz Schubert (1797-1828). Trabalho a ser memorável. Confira.

    Indivisível (Circus, 2011, v. 1)

    Indivisível (Circus, 2011, v. 2)

    Mas a canção de hoje pertence originalmente ao disco Pérolas aos poucos (Faixa 2).

    A seguir, transcrevo a letra e, após, disponho o player para que a canção seja também ouvida. A transcrição tem como base não o CD, mas o site de letras de músicas Vagalume. Portanto, não posso garantir que a disposição dos versos seja exatamente a que Wisnik elaborou. Garanto apenas a exatidão de todas as palavras por ele cantadas. Outra coisa: alguns sites referem que a canção é uma parceria com Jorge Mautner. Não tenho certeza. Inclusive, se algum leitor tiver o disco e puder conferir, sou grato. Na dúvida, referenciei apenas quem tenho certeza que a compôs. A propósito, aproveito o ensejo para solicitar que os sites de letras de músicas, e mesmo os próprios produtores dos CDs, sejam mais solidários, exatos e cuidadosos com seus objetos, e pensem naqueles que, em algum momento, precisarem fazer referência menos deslumbrada e mais oficial dos discos. Lembro que a canção popular brasileira tem se tornado, cada vez mais, tema de estudo acadêmico. Portanto, será necessária alguma melhoria em relação ao dados referenciais dos discos e também exatidão com relação às letras que os letristas escrevem (disposição de versos e estrofes, grafia de palavras, etc.). Qualquer mínimo detalhe pode ser significativo. Que o digam os pesquisadores da área (Tatit, o próprio Wisnik, Nestrovski, Negreiros, Aninha, etc.).


    Tempo sem tempo
    (José Miguel Wisnik)

    vê se encontra um tempo
    pra me encontrar sem contratempo
    por algum tempo
    o tempo dá voltas e curvas
    o tempo tem revoltas absurdas
    ele é e não é ao mesmo tempo
    avenida das flores
    e a ferida das dores
    e só então
    de sopetão
    entro e me adentro no tempo e no vento
    e abarco e embarco no barco de Ísis e Osíris
    sou como a flecha do arco do arco do arco-íris
    que despedaça as flores mais coloridas em mil fragmentos
    que passa e de graça distribui amores de cristais, totais, sexuais
    celestiais
    das feridas das queridas despedidas
    de quem sentiu todos os momentos





    Abraço e até a próxima!






    segunda-feira, 31 de maio de 2010

    Gonzaguinha: imagem e feminilidade da vida



    Luiz Gonzaga Júnior, ou, Gonzaguinha, é, para muitos, simplesmente, o herdeiro do renomado cantor e compositor nordestino Luiz Gonzaga, criador de expressivos ritmos da musicalidade brasileira, especialmente o baião, e um dos mais representativos músicos do nordestão brasileiro. Entretanto, há uma diferença muito grande entre a carreira musical do pai e do filho, e mesmo quando Gonzaguinha cantava "Asa branca", o sucesso talvez mais popularmente conhecido de seu pai, quase sempre o fazia através de um arranjo inovador.


    Nascido em 1945, no Rio de Janeiro, Gonzaguinha engrenou, de fato, uma carreira musical, a partir de 1973, em pleno período de maior repressão da ditadura militar. Antes, porém, já havia sinalizado talento quando participou do M.A.U., o Movimento Artístico Universitário, ao lado de nomes como Ivan Lins e Aldir Blanc. Em 73, ao inscrever a canção "Comportamento geral" em um concurso de um programa de rádio, contagiou os ouvintes. Seu primeiro disco, lançado naquele ano, que estava encalhado nas lojas, esgotou, e o fulminante sucesso rendeu, da Rádio Tamoio, um convite para a gravação de um segundo disco, com o mesmo nome do primeiro, Luiz Gonzaga Júnior, realizado em 74. Desde então seus trabalhos obtiveram enorme repercussão, embora tenha sido indevidamente reconhecido, num primeiro momento, como o "compositor do rancor".



    A alcunha deve-se, provavelmente, à experiência que Gonzaguinha teve no morro de São Carlos, ou Estácio, no Rio de Janeiro, onde viveu parte de sua infância. Órfão de mãe aos dois anos de idade, Gonzaguinha foi criado pelos padrinhos, Dina e Xavier, já que Gonzagão, o pai, permanecia quase o ano inteiro viajando e cumprindo com sua ininterrupta agenda de shows - até em Santa Cruz do Sul o músico se apresentou. Foi através do padrinho, baiano, que o menino afeiçoou-se ao violão. A experiência na periferia Gonzaguinha transformou em várias letras, entre elas "Com a perna no mundo", estando em contato com o que se convencionou chamar de "submundo" e despertando, a partir disso, uma consciência social eventualmente de caráter mais contundente.

    "Acreditava na vida
    Na alegria de ser
    Nas coisas do coração
    Nas mãos um muito fazer
    Sentava bem lá no alto
    Pivete olhando a cidade
    Sentindo o cheiro do asfalto
    Desceu por necessidade
    Ô Dina
    Teu menino desceu o São Carlos
    Pegou um sonho e partiu
    Pensava que era um guerreiro
    Com terras e gentes a conquistar
    Havia um fogo em seus olhos
    Um fogo de não se apagar

    Diz lá pra Dina que eu volto
    Que seu guri não fugiu
    Só quis saber como é
    Qual é
    Perna no mundo sumiu

    E hoje
    Depois de tantas batalhas
    A lama dos sapatos
    É a medalha
    Que ele tem pra mostrar
    Passado
    É um pé no chão e um sabiá
    Presente
    É a porta aberta
    E futuro é o que virá
    Mas, e daí

    Ô Ô E E Á
    O moleque acabou de chegar
    Ô Ô E E Á
    Nessa cama é que eu quero sonhar

    Ô Ô E E Á
    Amanhã boto a perna no mundo
    Ô Ô E E Á
    É que o mundo é que é o meu lugar".



    Ou "Fotografia", sobre o lugar em que cresceu.

    "Veja a cara dele sorrindo
    veja a cara dele sorrindo atrás do muro
    Agora ele pode sorrir pois o medo passou
    Já está bem mais calmo seu coração
    Ao invés do barulho do medo no ouvido
    Ele ouve o ruído do vidro das bolas de gude
    Agora ele pode brincar o jogo das bolas de gude
    menino de novo
    Veja na cara do outro, a tensão
    Na cara do outro a atenção no que vem
    Aquele olho de lado prestando atenção, vem alguém
    O exterminador, o torturador
    O anjo d'amor, o anjo da dor
    Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô
    Veja a cara daquele mais ruim
    A cara de espanto daquele mais um com o
    trinta e oito na mão
    Veja a fumaça saindo do cano
    O corpo de um outro menino caído no chão
    Veja o gude largado no chão
    Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô".



    Entretanto, muito mais que compositor do rancor, Gonzaguinha é o cantor da celebração. Sua poesia, simples mas não simplória, é quase uma reverência a um impulso de vida que pode renovar as agruras existenciais através de gestos de gentileza e, por isso, de libertação, bem como engendra um olhar que, amadurecido, volta-se consternado ao passado e, já repleto da chamada "sabedoria de rua", quer, de certa forma, estabelecer um convite à renovação. Na verdade, seu amor à vida não tem espaço para a manifestação do rancor, mas, mais sublime, quer, numa disposição irrefreável, subliminar o que está negativizadamente à volta, mesmo que, para tanto, seja necessário desvelar o que vai de encontro a essa disposição, quase que em um movimento catártico. Sua maneira de se posicionar diante dos fatos é sempre enaltecida pelo carinho e pela solidariedade. Suas imagens, mesmo quando evocam eventos direta ou indiretamente trágicos, sempre estão resguardadas por elementos próprios de um imaginário infantil e/ou de uma beleza singela, impedindo que confluam a uma total negativização do instante, mas, ao contrário, permitindo que sejam, de alguma forma, suplantadas no sentido de serem aderidas à experiência existencial como algo passível de ser positivizado - desde que haja olhar para tanto.



    Em 29 de abril de 1991 o cantor e compositor perdeu tragicamente a vida, aos 45 anos, em um acidente de trânsito, no Paraná. Um caminhão cortou a frente de seu Monza quando o músico dirigia-se para Foz do Iguaçu, onde tomaria um avião para Florianópolis, Santa Catarina, e realizaria seis shows. Lamentável perda. Uma vida, em pleno vigor e sucesso, ceifada drasticamente a caminho de realizar aquilo a que com mais vibração se dispunha: compartilhar o amor à vida através da canção.



    Gonzaguinha tinha algo não muito comum na música brasileira: o canto completamente embevecido por um clamor amoroso de anima. E talvez não exista representante maior daquilo que Luiz Tatit, teórico brasileiro, chama de "persuasão passional", ou seja, a maneira de entoação das vogais, expandindo-as. Além disso, Gonzaguinha soube como poucos expressar uma disposição feminina de entrega, oposta, mas não em conflito, ao masculino, geralmente dominador. O verbo de sua música, sem dúvidas, é viver, e as imagens dessa vivenciação erguem-se no sentido de expressar júbilo para com essa disposição, seja através do corpo ou da alma. Há quem diga que ele teria sido um dos primeiros compositores a dar ao feminino uma voz de potencialidade tão significativa quando o masculino. Na verdade, ambos completam-se, e a afetividade que deflagam é sempre terna. A essência estará no elo, não no indivíduo - embora dependa do indivíduo.



    Seus vinte discos expressam esta disposição de viver incondicionalmente celebrando o gesto e o caráter. Sua moral não é lição, mas experiência. Muito embora tenhamos perdido precocemente sua poderosa maneira de (en)cantar as coisas simples e amáveis da vida, Gonzaguinha certamente terá para sempre um lugar especial na história da música àqueles que, como disse, deixam a vida entrar, calorosamente, ou que, em parando de temer, chorar e sofrer, sorriem, se dão e, por isso, se perdem e se acham, e encontram tudo aquilo que é viver - a vida -, como se fosse o sol.

    "Por um segundo

    Por um segundo num sorriso teu
    Fez-se festa infinita em minha vida
    E a estrada longa inteira
    Num giro da mente eu vi

    Por um segundo em um beijo teu
    Tive todo o universo em meu corpo
    E eu fui dono das estrelas
    Guardei no peito pra dois

    Manso riacho
    Nos levando
    Abraço calmo e quente
    Corrente aumentando
    Mergulha sem fim

    Por um segundo, um segundo só
    Explodiu o nosso amor por sobre o mundo
    E nós fomos só alegria
    Depois o silêncio
    E então morrer".


    sexta-feira, 2 de abril de 2010

    João Bosco, um músico pleno

    Ando revendo as postagens que já publiquei aqui no blog a fim de conferir os assuntos que prometi abordar e ainda não comentei. Uma delas prometia um post sobre João Bosco, cantor, compositor e instrumentista brasileiro. Cumpro aqui, então, a promessa de falar sobre esse que, para mim, representa um dos pontos mais altos da música popular brasileira.



    João Bosco, desde que o conheço, sempre foi um show que desejei ir. Em muitas oportunidades o compositor mineiro já esteve no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, mas foi ano passado, mais precisamente no dia 31 de julho, que eu e a Aninha decidimos que seria uma ocasião imperdível para conferir o show, realizado no Bourbon Country. Além da facilidade de chegar ao local, cujo trajeto já conhecíamos, o preço era extremamente em conta, quase um brinde para os admiradores do talento de João Bosco. Fomos e ficamos completamente extasiados com a perfomance do músico e com a oportunidade de vê-lo ao vivo interpretando grandes sucessos de sua carreira. Uma oportunidade única.

    Conheci João Bosco não fazem muitos anos, através do disco Acústico, que o compositor realizou quando de uma apresentação para a MTV, em 1992. Até hoje considero-o um dos melhores discos que já ouvi de música popular brasileira. Extremamente recomendado a quem aprecia boa música. Boa não, excepcional, diga-se de passagem.



    João Bosco, músico mineiro, começou sua carreira em 1972 com um disco de bolso comercializado junto ao Pasquim, intitulado O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco. O brinde continha uma única faixa, interpretada por Bosco e composta em parceria com Aldir Blanc, com excepcional musicalidade, já antecipando o seu impressionante talento em composição, tanto em letra quanto em música. A parceria com Aldir Blanc já começava a tornar-se antológica, e renderia, no ano seguinte, um álbum com onze faixas inéditas, João Bosco, no qual apenas a última faixa, "Amon Rá e o cavalo de Tróia", não era em parceria com o famoso letrista carioca. Em seguida vieram Caça à raposa (1975), Galos de briga (1976), Tiro de misericórdia (1977), Linha de passe (1979), Bandalhismo (1980), Essa é a sua vida (1981), Comissão de frente (1982), 100ª apresentação (1983), Gagabirô (1984), Cabeça de nego (1986), Ai ai ai de mim (1987), Bosco (1989), Zona de fronteira (1991), Acústico (1992), Na onda que balança (1994), Dá licença meu senhor (1995), As mil e uma aldeias (1997), Benguelê (1998), Na esquina (2000), Na esquina ao vivo (2001), Malabaristas do sinal vermelho (2003), Obrigado, gente! (2006) e, o mais recente, Não vou pro céu, mas já não vivo no chão (2009). Inútil tentar destacar determinadas faixas desses discos todos, ou falar sobre as já tão amplamente comentadas "Corsário", "Jade", "´Memória da pele", "O bêbado e o equilibrista" e "Linha de passe", só para citar algumas das canções popularmente mais conhecidas. Tal proposta demandaria um estudo bastante extenso e exaustivo. Me proponho, sim, a uma visão mais geral sobre esse ícone da música popular brasileira, e uma breve nota sobre seu mais recente trabalho com inéditas.



    João Bosco, embora mineiro, imigrou muito cedo para o Rio de Janeiro, e tornou-se conhecido em plena década de 70, época de ditadura militar e de censura, com as consequências políticas do medonho AI-5. A influência da sonoridade carioca é bastante evidente em sua música, especialmente nos primeiros discos, mas há sempre uma aura de musicalidade mineira, berço de grandes compositores e de grande musicalidade, tão amplamente difundida pelo famoso Clube da Esquina, do qual surgiram grandes nomes, como Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta e, posteriormente, Flávio Venturini. Podemos dizer que há uma mineiralidade errante na sonoridade de João Bosco, que veio ao encontro dos ritmos da Bossa Nova e do Samba-Canção cariocas - sem falar na música, digamos, romântica, como o bolero, e sem falar nas influências do jazz, já estampadas na bossa nova, e do blues, mas principalmente do primeiro. A grande qualidade de João Bosco advém talvez de transitar em diferentes gêneros e propor, através dessa dança, um swing e/ou um balanço com rara lucidez - por vezes até com requintes clássicos -, concebendo uma riqueza de sonoridades quase sem igual na musicalidade popular brasileira, com especial ênfase nos arranjos de cordas e de percussão. Como se não bastasse, há as letras, muitas delas escritas em parceria com o grande Aldir Blanc, cuja poética, com ou sem relação contextual, deflagram algumas das mais belas e cativantes imagens da poesia da canção brasileira. Embora a genial parceria com Blanc, João Bosco, em vários trabalhos, demonstrou excepcional talento também para escrever letras, algumas até antológicas. Todos esses elementos juntos, ou seja, a música, a letra e a instrumentalização reunidas, compõem um trabalho musical de excepcional qualidade no cenário da MPB. Aliás, é digna de nota a habilidade de João Bosco em compor, muitas vezes sozinho, letras, melodias e arranjos instrumentais, numa reunião de elementos cuja beleza configura uma qualidade não tão comum na MPB. Geralmente quando músicos têm habilidade nesses três aspectos, algum deles acaba sobressaindo aos demais, o que não acontece com João Bosco. O compositor mineiro destaca-se, afinal, justamente pela harmonia dessa tríade da arte da música-canção: a poética da letra, da invenção melódica e do arranjo instrumental. Talento impressionante.

    Há também uma presença refinada de uma feminilidade em suas letras. Se Chico Buarque é o cantor do feminino, João Bosco é o intérprete da feminilidade (aqui talvez com uma disposição muito próxima da de Gonzaguinha), que salta tanto de suas imagens poéticas quanto de sua gestualidade vocal. Esse aliás é um outro aspecto que soma-se à qualidade de suas músicas: Bosco é também um grande cantor, e é muito difícil para um outro intérprete conseguir evocar as imagens de suas letras com uma força tão orgânica e límpida como a de seu criador. Resumindo: é bom ouvir João Bosco em todos os sentidos, o que confere à sua música uma experienciação muito enriquecida - sem falar em suas peculiares vocalizações melódicas, marca intransferível de grande parte de suas interpretações, sobretudo as realizadas ao vivo. A música de João Bosco é tão rica - e o compositor sempre costuma ir além da forma, principalmente ao vivo - que mesmo ouvindo-o acompanhado tão somente de um violão imergimos em uma experiência de musicalidade com excepcional sensibilidade, lucidez musical e qualidade múltipla. A forma da música de João Bosco é, aliás, elaborada de maneira que, já em seu nascedouro, possua uma maleabilidade rítmica impressionante, habilmente configurada pelo músico em sua maneira peculiar de vocalização, sobretudo das vogais, e, muitas vezes, na (re)disposição dos arranjos quando nas interpretações fora de estúdio. Tudo é sempre muito musical em João Bosco, e o resultado só pode ser uma plenitude.

    Em seu mais recente trabalho, Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, nos deparamos com um músico consciente de uma maturidade musical com pleno vigor. O disco é, sem dúvidas, um dos melhores lançados no cenário da MPB no ano passado - talvez o melhor. Desde 2003 sem lançar um trabalho com canções inéditas, ou seja, há cerca de seis anos - fato raro em sua discografia -, João Bosco fez um passeio com os estilos que o inspiram a compor. Há uma musicalidade excepcional em faixas como "Navalha", "Desnortes", "Tanajura", "Jimbo no jazz", "Ingenuidade" e "Sonho de caramujo", para não dizer todas. Incrível o que João Bosco fez nesse disco, uma espécie de reunião rítmica sofisticada de muito daquilo que ele já mostrou em seus mais de trinta anos de carreira. Depois de ouvir entendemos o porquê de um espaço de tempo mais longo que o habitual entre um disco de inéditas e outro, dado o trabalho de produção e o cuidado com os detalhes que parecem ter demandado as músicas. Novamente temos aqui um conjunto de elementos que reverberam em uníssono, proporcionando uma experienciação musical de grande amplitude, sem falar no canto de Bosco, que em nada parece ter sido afetado pelos anos. Dou aqui uma menção especial para as faixas "Desnortes", cujo arranjo em muito lembra o arrojo de um Guinga, e "Tanajura", com um extraordinário arranjo de cordas e de percussão, tecido harmoniosamente em conjunção com a letra. As duas composições apresentam, ainda, uma belíssima poeticidade no que concerne às letras e ao canto de Bosco. Uma obra-prima, arrisco-me a dizer. Resta salientar, por último, o retorno da parceria com Aldir Blanc, que talvez tenha ocorrido através de um resgate de letras criadas por ambos no passado e que tenham, por algum motivo, permanecido sem serem gravadas.



    João Bosco está, por essas e outras razões, a meu ver, entre os maiores músicos da história de nosso país. E o mais legal de tudo é que o compositor parece exercer seus talentos com a mais despojada alegria e prazer, como se a música fosse - e é -, para ele, um perfeito prolongamento de sua existência.

    terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

    Contar cantando*

    Ouvir histórias durante a infância é uma experiência que, em geral, fica marcada e repercute em nossa vida afora. As memórias remetem não somente às narrativas, mas àquele clima de conforto e aconchego que normalmente sentíamos quando estávamos envolvidos afetivamente com a figura que pacientemente compartilhava suas histórias vividas, inventadas, ou lidas, sem alguma razão especial, para simplesmente entreter, compartilhar e nos confortar.
    Há algum tempo me dei conta de que um elemento marcante em minha vida fora engendrado já nesse período das histórias contadas. E nesse caso, havia algo de especial: as histórias em minha vida, mais que contadas, foram cantadas. Curioso também é o fato de que eu ouvia mais canções do que cantigas: a mãe cantava para embalar meu sono as suas preferidas do Caetano, do Tim Maia, da Gal Costa; o pai me convidava a ouvir Chico Buarque, cantando na história do Curumim, e no rádio; na época ainda podíamos ouvir no rádio o que chamavam de MPB (Música Popular Brasileira). Meu gosto por boa música brasileira começava a se desenvolver antes mesmo que eu pudesse reproduzir corretamente as palavras das canções que eu ouvia.
    Um gosto que foi cultivado durante o período de adolescência, quando, já emancipada do suporte dos contadores e cantadores da família, passava as tardes ouvindo as fitas cassete que eu mesma gravava. Ali ocorreram minhas grandes descobertas poéticas, nas narrativas do Chico, nas imagens do Caetano, na emoção da interpretação da Elis Regina. Eu queria cantar também. Eu queria ouvir mais e mais.
    Os sons me marcaram e constituíram desde aquele período, compondo a mescla cultural que integra hoje o conjunto das minhas experiências estéticas. A canção brasileira foi a grande fonte do meu letramento. Hoje, junto ao grupo de pesquisa Estudos Poéticos, tenho a oportunidade de pesquisar sobre esse gênero que tanto me fascina e que me mantém cativa até nossos dias. Desde que projetei meu futuro como professora de Português, via a canção como um texto fundamental para as aulas.
    Feliz estou em saber que o Referencial Curricular elaborado pelo Programa Boa Escola para Todos inclui a canção como um gênero importante a ser levado para as salas de aula. Espero que nossas crianças cada vez mais ouçam e cantem as boas músicas do Brasil.
    *Texto publicado no jornal Gazeta do Sul, em 23 de fevereiro de 2010.